{
  "eaf_version": "1.0",
  "id": "Q0006",
  "tipo": "questao",
  "titulo": "O que separa documento de não-documento?",
  "resumo": "Antes de perguntar qual é o documento mais antigo, é preciso decidir o que conta como documento. Um osso com marcas, um selo, um antílope no zoológico — cada definição inclui e exclui coisas diferentes, e redesenha o que pode ser datado.",
  "status": "ABERTA",
  "dominio": "Teoria do documento e do registro",
  "tema": "A fronteira entre documento e não-documento",
  "slug": "documento-vs-nao-documento",
  "criterio_previo": "A questão é anterior a qualquer achado: não se trata de descobrir um documento, mas de definir o critério que faz de um objeto um documento. Registrar um ato? Ser produzido numa atividade? Servir de prova? Cada resposta muda o conjunto do que existe para ser datado e comparado.",
  "moldura": {
    "tradicoes": [
      "Diplomática e crítica documental (Mabillon)",
      "Arquivística funcional (Jenkinson, Schellenberg)",
      "Documentação e neodocumentalismo (Otlet, Briet, Buckland)"
    ],
    "criterio": "Trata-se de uma questão de definição com efeitos empíricos: o critério adotado determina o universo de objetos que contam como documento e, portanto, o que pode reivindicar ser o 'mais antigo'. Decide-se pela coerência e pelo poder explicativo de cada concepção, não por autoridade.",
    "fora_de_escopo": [
      "Juízos sobre autenticidade de um documento específico (questão técnica, não de definição)",
      "Valor jurídico-probatório de documentos em um ordenamento legal concreto"
    ]
  },
  "atualizado_em": "2026-06-13",

  "prosa": "Toda história da escrita carrega uma pergunta escondida: o que, afinal, conta como documento? A questão parece pedante até se notar que ela decide o jogo. Se documento é só o registro escrito de um ato jurídico, então marcas em ossos e selos administrativos ficam de fora. Se documento é qualquer objeto que sirva de prova, então quase tudo entra — e a disputa pelo 'mais antigo' muda de candidato.\n\nA tradição mais antiga vem da diplomática. Quando Jean Mabillon fundou a crítica documental no século XVII, documento era o registro escrito que testemunha um ato e cuja forma podia ser autenticada. É a concepção que ainda governa o direito e boa parte da história: documento é prova formal, e o que importa é distinguir o autêntico do falso. A régua é firme, mas estreita — exclui de saída tudo o que não tem forma jurídica reconhecível.\n\nA arquivística do século XX alargou a fronteira. Para Hilary Jenkinson e depois Theodore Schellenberg, documento de arquivo é qualquer registro produzido ou recebido no curso de uma atividade, em qualquer suporte — o que conta não é a forma jurídica, mas a organicidade: o vínculo entre o registro e a função que o gerou. Por esse critério, uma lista de rações de Uruk é documento tanto quanto um tratado, e a fronteira passa a depender do contexto de produção, não da aparência do objeto.\n\nO alargamento radical veio da documentação. Paul Otlet e, sobretudo, Suzanne Briet propuseram que documento é qualquer indício material tratado como evidência. Briet ilustrou com um exemplo célebre: um antílope correndo na savana não é documento; o mesmo antílope capturado, catalogado e exibido num zoológico torna-se documento — porque passou a funcionar como prova. Michael Buckland retomou a tese em 1997 e a levou ao limite: documento não é uma classe de objetos, é uma função. Qualquer coisa pode ser documento se for usada como evidência ou informação — inclusive um arquivo digital sem suporte físico fixo.\n\nNo fim, as quatro concepções não disputam fatos, e sim onde traçar a linha. E a linha que se escolhe é a mesma que decide, lá na frente, qual é o documento escrito mais antigo conhecido — porque define o que sequer pode ser colocado na disputa.",

  "imagens": [],

  "i18n": {
    "en": {
      "titulo": "What separates a document from a non-document?",
      "resumo": "Before asking which is the oldest document, one must decide what counts as a document. A marked bone, a seal, an antelope in a zoo — each definition includes and excludes different things, and reshapes what can be dated.",
      "criterio_previo": "The question precedes any find: it is not about discovering a document, but about defining the criterion that makes an object a document. Recording an act? Being produced within an activity? Serving as evidence? Each answer changes the set of things there are to date and compare.",
      "prosa": "Every history of writing carries a hidden question: what, after all, counts as a document? It sounds pedantic until one notices that it settles the game. If a document is only the written record of a legal act, then marks on bones and administrative seals are excluded. If a document is any object that serves as evidence, then almost everything enters — and the contest for the 'oldest' changes candidate.\n\nThe oldest tradition comes from diplomatics. When Jean Mabillon founded documentary criticism in the seventeenth century, a document was the written record that witnesses an act and whose form could be authenticated. It is the conception that still governs law and much of history: a document is formal proof, and what matters is telling the authentic from the forged. The ruler is firm but narrow — it excludes from the start everything without recognizable legal form.\n\nTwentieth-century archival science widened the border. For Hilary Jenkinson and later Theodore Schellenberg, an archival document is any record produced or received in the course of an activity, on any medium — what counts is not legal form but organicity: the bond between the record and the function that generated it. By this criterion, a ration list from Uruk is as much a document as a treaty, and the border comes to depend on context of production, not on the object's appearance.\n\nThe radical widening came from documentation. Paul Otlet and, above all, Suzanne Briet proposed that a document is any material clue treated as evidence. Briet illustrated it with a famous example: an antelope running in the savanna is not a document; the same antelope captured, catalogued and displayed in a zoo becomes a document — because it now functions as proof. Michael Buckland revived the thesis in 1997 and pushed it to the limit: a document is not a class of objects, it is a function. Anything can be a document if used as evidence or information — including a digital file with no fixed physical medium.\n\nIn the end, the four conceptions do not dispute facts, but where to draw the line. And the line one chooses is the same that decides, further down, which is the oldest known written document — because it defines what can even be placed in the contest."
    }
  },

  "posicoes": [
    {
      "id": "P0001",
      "titulo": "Concepção diplomático-jurídica (documento = prova formal de um ato)",
      "afirmacao": "Documento é o registro escrito que testemunha um ato e cuja forma pode ser autenticada; o que não tem forma documental reconhecível não é documento.",
      "robustez": "ALTA",
      "consenso": "PREDOMINANTE",
      "estrato": "2",
      "data_inicio": 1681,
      "data_fim": 2026,
      "local": "Europa — diplomática e tradição jurídica (a partir de Mabillon)",
      "lat": null,
      "lng": null,
      "metodos_datacao": ["M0001"],
      "critica_principal": "Restringe documento à forma jurídica e exclui de saída registros administrativos, marcas e suportes não-escritos que a arqueologia trata como documentos.",
      "cita_fontes": ["R0001"],
      "fontes": ["R0001"],
      "consenso_historico": [
        {"periodo": [1681, 1900], "status": "PREDOMINANTE", "nota": "Mabillon (1681) firma a crítica documental; domina o direito e a história"},
        {"periodo": [1900, 2026], "status": "PREDOMINANTE", "nota": "Segue dominante na esfera jurídica, agora ao lado de concepções mais amplas"}
      ]
    },
    {
      "id": "P0002",
      "titulo": "Concepção arquivística-funcional (documento = registro orgânico de uma atividade)",
      "afirmacao": "Documento é qualquer registro produzido ou recebido no curso de uma atividade, em qualquer suporte; o que o define é a organicidade — o vínculo com a função que o gerou —, não a forma jurídica.",
      "robustez": "MODERADA",
      "consenso": "PREDOMINANTE",
      "estrato": "2",
      "data_inicio": 1922,
      "data_fim": 2026,
      "local": "Reino Unido e Estados Unidos (arquivística moderna)",
      "lat": null,
      "lng": null,
      "metodos_datacao": ["M0002"],
      "critica_principal": "Reconstruir a função geradora a partir do contexto de achado é interpretativo; em corpora antigos sem arquivo preservado, a organicidade é inferida, não observada.",
      "cita_fontes": ["R0002", "R0003"],
      "fontes": ["R0002", "R0003"],
      "consenso_historico": [
        {"periodo": [1922, 1956], "status": "CRESCENTE", "nota": "Jenkinson (1922) ancora a organicidade; Schellenberg (1956) sistematiza"},
        {"periodo": [1956, 2026], "status": "PREDOMINANTE", "nota": "Torna-se base da arquivística e da gestão de documentos"}
      ]
    },
    {
      "id": "P0003",
      "titulo": "Concepção documentalista (documento = indício material tratado como evidência)",
      "afirmacao": "Documento é qualquer objeto tomado como prova ou indício, independentemente de ser escrito; o antílope catalogado de Briet é documento porque passou a funcionar como evidência.",
      "robustez": "MODERADA",
      "consenso": "CRESCENTE",
      "estrato": "3",
      "data_inicio": 1934,
      "data_fim": 2026,
      "local": "Bélgica e França (movimento da documentação)",
      "lat": null,
      "lng": null,
      "metodos_datacao": ["M0003"],
      "critica_principal": "Ao admitir qualquer objeto-evidência, perde poder discriminante: quase tudo pode ser lido como documento sob alguma descrição, esvaziando a categoria.",
      "cita_fontes": ["R0004", "R0005"],
      "fontes": ["R0004", "R0005"],
      "consenso_historico": [
        {"periodo": [1934, 1951], "status": "MINORITARIO", "nota": "Otlet (1934) e Briet (1951) formulam a definição funcional ampla"},
        {"periodo": [1951, 2026], "status": "CRESCENTE", "nota": "Ganha tração com a ciência da informação e o digital"}
      ]
    },
    {
      "id": "P0004",
      "titulo": "Concepção funcional-informacional (documento é função, não classe de objeto)",
      "afirmacao": "Não há classe natural de documentos: ser documento é uma função evidencial ou informacional que qualquer coisa pode exercer, inclusive objetos digitais sem suporte físico fixo.",
      "robustez": "MODERADA",
      "consenso": "CRESCENTE",
      "estrato": "3",
      "data_inicio": 1997,
      "data_fim": 2026,
      "local": "Estados Unidos (ciência da informação)",
      "lat": null,
      "lng": null,
      "metodos_datacao": ["M0003"],
      "critica_principal": "Definir documento por função torna a fronteira dependente do observador e do uso, o que dificulta qualquer comparação histórica estável entre 'documentos'.",
      "cita_fontes": ["R0006"],
      "fontes": ["R0006"],
      "consenso_historico": [
        {"periodo": [1997, 2026], "status": "CRESCENTE", "nota": "Buckland (1997) reformula a tese de Briet para a era digital"}
      ]
    }
  ],

  "metodos": [
    {
      "id": "M0001",
      "nome": "Crítica diplomática (análise de forma e autenticidade)",
      "aplicado_a": ["P0001"],
      "criticas": [
        { "texto": "A crítica diplomática pressupõe a existência de uma forma documental convencional, o que circunscreve de antemão o que pode ser documento.", "status": "EM_ABERTO" },
        { "texto": "Aplicada a registros antigos sem tradição jurídica escrita, a forma diplomática não tem o que analisar.", "status": "RECONHECIDA" }
      ]
    },
    {
      "id": "M0002",
      "nome": "Análise arquivística (princípio da proveniência e do contexto)",
      "aplicado_a": ["P0002"],
      "criticas": [
        { "texto": "A organicidade é inferida do contexto de produção; quando o arquivo não se preservou, a inferência é frágil.", "status": "EM_ABERTO" },
        { "texto": "Função semelhante não garante mesma natureza documental: contextos distintos podem gerar registros incomparáveis.", "status": "RECONHECIDA" }
      ]
    },
    {
      "id": "M0003",
      "nome": "Análise documentalista-funcional (definição por uso evidencial)",
      "aplicado_a": ["P0003", "P0004"],
      "criticas": [
        { "texto": "Definir documento pelo uso desloca o critério para o observador, tornando a categoria dependente do contexto de leitura.", "status": "EM_ABERTO" },
        { "texto": "Sem limite de extensão, a definição funcional admite quase qualquer objeto, o que reduz sua utilidade analítica.", "status": "RECONHECIDA" }
      ]
    }
  ],

  "conceitos": [
    { "termo": "documento", "definicao": "objeto que registra ou serve de prova de informação; a fronteira de sua definição é justamente o que está em disputa", "wikidata_qid": "Q49848" },
    { "termo": "diplomática", "definicao": "disciplina que estuda a forma, a gênese e a autenticidade dos documentos" },
    { "termo": "organicidade", "definicao": "vínculo entre um registro de arquivo e a atividade que o produziu, base da concepção arquivística" },
    { "termo": "proveniência", "definicao": "princípio arquivístico que mantém os documentos ligados ao seu produtor e contexto de origem" },
    { "termo": "documentação", "definicao": "tradição (Otlet, Briet) que define documento de forma ampla, por sua função de evidência" },
    { "termo": "evidência", "definicao": "função pela qual um objeto passa a sustentar ou comprovar uma afirmação" }
  ],

  "lacunas": [
    { "tipo": "conceitual", "texto": "Não há definição única de 'documento' partilhada entre direito, arquivística e ciência da informação — cada campo traça a fronteira em lugar diferente.", "criticidade": "ALTA" },
    { "tipo": "conceitual", "texto": "A concepção funcional (documento = uso) e a concepção formal (documento = forma) não foram reconciliadas em um critério operacional comum.", "criticidade": "ALTA" },
    { "tipo": "cobertura", "texto": "Registros não-escritos antigos (marcas, entalhes, fichas) ficam em zona cinzenta: são documentos para a arqueologia, mas não para a diplomática.", "criticidade": "MEDIA" },
    { "tipo": "conceitual", "texto": "A extensão da definição documentalista ao digital sem suporte fixo levanta problemas de identidade e datação ainda não resolvidos.", "criticidade": "MEDIA" }
  ],

  "fontes": [
    {
      "id": "R0001",
      "ref": "Mabillon, J. (1681). De re diplomatica libri sex. Paris: Luis Billaine.",
      "doi": null,
      "isbn": null,
      "editora": "Luis Billaine",
      "ano": 1681,
      "tipo": "primaria",
      "autores": [
        { "nome": "Jean Mabillon" }
      ]
    },
    {
      "id": "R0002",
      "ref": "Jenkinson, H. (1922). A Manual of Archive Administration. Oxford: Clarendon Press.",
      "doi": null,
      "isbn": null,
      "editora": "Clarendon Press",
      "ano": 1922,
      "tipo": "primaria",
      "autores": [
        { "nome": "Hilary Jenkinson" }
      ]
    },
    {
      "id": "R0003",
      "ref": "Schellenberg, T. R. (1956). Modern Archives: Principles and Techniques. Chicago: University of Chicago Press.",
      "doi": null,
      "isbn": null,
      "editora": "University of Chicago Press",
      "ano": 1956,
      "tipo": "primaria",
      "autores": [
        { "nome": "Theodore R. Schellenberg" }
      ]
    },
    {
      "id": "R0004",
      "ref": "Briet, S. (1951). Qu'est-ce que la documentation? Paris: Édit, Éditions Documentaires, Industrielles et Techniques.",
      "doi": null,
      "isbn": null,
      "editora": "ÉDIT",
      "ano": 1951,
      "tipo": "primaria",
      "autores": [
        { "nome": "Suzanne Briet" }
      ]
    },
    {
      "id": "R0005",
      "ref": "Otlet, P. (1934). Traité de documentation: le livre sur le livre. Bruxelles: Mundaneum.",
      "doi": null,
      "isbn": null,
      "editora": "Mundaneum",
      "ano": 1934,
      "tipo": "primaria",
      "autores": [
        { "nome": "Paul Otlet", "wikidata": "Q44331" }
      ]
    },
    {
      "id": "R0006",
      "ref": "Buckland, M. K. (1997). What is a \"document\"? Journal of the American Society for Information Science 48(9), 804-809.",
      "doi": "10.1002/(SICI)1097-4571(199709)48:9<804::AID-ASI5>3.0.CO;2-V",
      "isbn": null,
      "editora": "Wiley",
      "ano": 1997,
      "tipo": "secundaria",
      "autores": [
        { "nome": "Michael K. Buckland" }
      ]
    }
  ],

  "questoes_ligadas": [
    { "relacao": "influencia", "id": "Q0001", "titulo": "Qual é o documento escrito mais antigo conhecido?" },
    { "relacao": "relaciona", "id": "Q0004", "titulo": "O que separa escrita verdadeira de proto-escrita?" }
  ],

  "historico": [
    {
      "data": "2026-06-13",
      "autor": "EpisMap",
      "mudanca": "Versão inicial publicada. 4 posições (diplomática, arquivística, documentalista, funcional-informacional), 3 métodos, 6 conceitos, 4 lacunas, 6 fontes."
    }
  ]
}
