A faculdade da linguagem surgiu de forma gradual ou por um salto recente — e quando?
Ninguém sabe ao certo quando nem como a linguagem surgiu. As estimativas vão de 50 mil a mais de um milhão de anos, e as explicações não se conciliam.
O que a questão pressupõe
Opera sob a distinção de Hauser, Chomsky & Fitch (2002) entre a faculdade da linguagem em sentido amplo (FLB — sistemas sensório-motores e conceituais, em parte compartilhados com animais) e em sentido estrito (FLN — a recursão). 'Origem da linguagem' refere-se à capacidade biológica (a faculdade), não a uma língua específica nem à escrita. 'Gradual' supõe estágios intermediários funcionais selecionados; 'saltacional' supõe surgimento recente e relativamente súbito.
A faculdade da linguagem surgiu de forma gradual ou por um salto recente — e quando?
Quase tudo o que sabemos sobre o passado humano vem de coisas que sobraram: ossos, ferramentas de pedra, sementes carbonizadas, pegadas em cinza vulcânica. A linguagem não deixa nada disso. Um som se dissipa no instante em que é pronunciado, e nenhuma gramática fica presa no sedimento. Foi essa frustração que levou a Sociedade Linguística de Paris a banir, em 1866, qualquer comunicação sobre a origem das línguas — o assunto rendia teorias demais e provas de menos. O veto caducou, mas o impasse que o motivou continua de pé.
A discussão moderna gira em torno de uma pergunta simples de enunciar e difícil de responder: a linguagem surgiu aos poucos ou de uma vez? Para a maioria dos pesquisadores, ela foi se formando ao longo de centenas de milhares de anos, como qualquer outra adaptação biológica. Steven Pinker e Paul Bloom defenderam em 1990 que a linguagem é tão complexa e tão útil que só a seleção natural poderia tê-la moldado — e, se foi assim, deve ter passado por estágios intermediários que já funcionavam, uma espécie de protolinguagem com poucas palavras e uma ordem rudimentar. Noam Chomsky discorda. Para ele, o coração da linguagem é uma única operação mental, chamada Merge, que combina elementos em estruturas hierárquicas sem limite. Algo assim, argumenta, não se constrói por partes: teria aparecido de repente, há talvez 80 a 50 mil anos, primeiro como ferramenta de pensamento e só mais tarde aproveitada para falar.
Há também quem se pergunte por onde a linguagem começou. A hipótese gestual sustenta que ela nasceu nas mãos antes de migrar para a voz — uma ideia reforçada pela proximidade, no cérebro, entre as áreas que controlam o gesto e a fala. Outra linha imagina um começo mais musical: antes das palavras, um canto sem partes, depois fatiado em unidades menores. E Michael Tomasello desvia a atenção da gramática para algo anterior a ela. De nada adianta ter sintaxe, observa, se faltar a vontade de compartilhar o que se pensa. Apontar para um objeto, seguir o olhar do outro, querer informar só por informar — esse alicerce cooperativo, que os outros grandes primatas quase não têm, talvez seja o verdadeiro pré-requisito da linguagem.
E quando isso aconteceu? Sem fósseis de fala, os pesquisadores recorrem a pistas indiretas. Um osso hioide encontrado num esqueleto neandertal em Kebara, em Israel, é quase idêntico ao nosso, o que sugere um aparelho vocal capaz de articular sons. A descoberta de que os neandertais carregavam a mesma versão do gene FOXP2 que nós — um gene ligado à coordenação motora da fala — levou alguns autores a propor que alguma forma de linguagem já existia há mais de meio milhão de anos, antes de nossa linhagem se separar da deles. Mas a pista é frágil: FOXP2 está longe de ser um 'gene da linguagem', e um estudo de 2018 não achou no genoma o sinal de seleção recente que se esperava encontrar. A cronologia, como quase tudo aqui, segue em aberto.
No fundo, boa parte da briga é sobre o significado da palavra. Se 'linguagem' quer dizer sintaxe recursiva sem limite, então ela pode muito bem ser exclusiva do Homo sapiens e ter pouco mais de 50 mil anos. Se quer dizer comunicação simbólica organizada, suas raízes recuam por milhões de anos e talvez alcancem outras espécies. Definida de um jeito, é um evento recente e único; definida de outro, um longo processo compartilhado. Não por acaso, um manifesto de 2014 — assinado, entre outros, pelo próprio Chomsky — reconhecia que, com o que se sabe hoje, a origem da linguagem continua mais um enigma do que uma resposta. O problema não é falta de teorias. É o contrário: há muitas, e quase nenhuma maneira de decidir entre elas.
O que sustenta o que você está lendo
Toda enciclopédia esconde a qualidade das próprias fontes. Nós mostramos. As métricas abaixo são calculadas do JSON cru a cada build — nada de score único, nada de selo verde de qualidade. São seis ângulos honestos sobre o que sustenta esta questão.
Métricas calculadas no build a partir do JSON cru. Sem rótulos pintados, sem score único — o objetivo é tornar visível o que normalmente fica escondido. ver métricas como JSON.
As respostas que coexistem
A linguagem é uma adaptação biológica complexa, moldada incrementalmente por seleção natural para a comunicação ao longo de centenas de milhares de anos — análoga ao olho ou à mão —, passando por estágios intermediários funcionais (protolinguagem). [R0002, R0006, R0004, R0021]
crítica-chave · Os estágios intermediários (protolinguagem) são reconstruções teóricas sem registro fóssil direto; a seleção específica para 'comunicação' é difícil de testar empiricamente.
A faculdade da linguagem em sentido estrito reduz-se à operação computacional recursiva 'Merge', surgida de forma abrupta e recente (c. 80–50 mil anos) por uma reorganização neural única em Homo sapiens, primeiro a serviço do pensamento e só secundariamente da comunicação. [R0001, R0003, R0020]
crítica-chave · Postular uma única mutação súbita conflita com a genética de populações e é, na prática, intestável no registro paleontológico; a própria separação FLN/FLB é contestada por Pinker e Jackendoff.
A linguagem emergiu primeiro na modalidade manual/gestual — ancorada no sistema de neurônios-espelho e na área de Broca — e a fala vocal foi uma transferência de modalidade posterior. [R0007, R0008, R0009]
crítica-chave · A transição de gesto para fala carece de mecanismo consensual; línguas de sinais modernas demonstram equivalência funcional, não primazia evolutiva da mão sobre a voz.
Alguma forma de linguagem falada já existia há 500 mil anos ou mais e era compartilhada com os Neandertais, com base na variante derivada de FOXP2 compartilhada, no osso hioide de Kebara, no canal hipoglosso e na capacidade auditiva dos hominíneos de Atapuerca. [R0011, R0010, R0014, R0012]
crítica-chave · Proxies anatômicos e genéticos indicam pré-requisitos da fala, não a presença de sintaxe; FOXP2 não é um 'gene da linguagem' e a introgressão entre linhagens complica a inferência.
A linguagem derivou de vocalizações holísticas, musicais e prosódicas — um 'canto' comunicativo anterior às palavras —, posteriormente segmentado em unidades com significado (hipótese da musilíngua). [R0015, R0016, R0017]
crítica-chave · Hipótese especulativa e difícil de falsear; a passagem do holístico ao composicional carece de mecanismo demonstrado.
O pré-requisito decisivo não foi a gramática, mas a intencionalidade compartilhada — a cognição e a motivação cooperativas (apontar, pantomima, atenção conjunta) — sobre a qual a convenção linguística se construiu. [R0009, R0019]
crítica-chave · Explica a pragmática e a pré-condição social, mas não a origem específica da estrutura sintática; é difícil separar causa de efeito entre cooperação e linguagem.
Com a evidência disponível, a origem da linguagem é cientificamente subdeterminada: como a linguagem não fossiliza, as reconstruções são, em grande parte, narrativas adaptativas não-testáveis — razão histórica da proibição do tema pela Société de Linguistique de Paris em 1866. [R0018, R0022]
crítica-chave · Pode subestimar o poder de convergência de evidências indiretas (genética, paleoneurologia, modelagem comparada); o ceticismo absoluto também não é, ele próprio, testável.
Os métodos e suas críticas
Conceitos que a questão pressupõe
- faculdade da linguagem (FLN/FLB) @c7ec9c6
- distinção de Hauser, Chomsky & Fitch (2002) entre a faculdade em sentido amplo (sistemas em parte compartilhados com animais) e em sentido estrito (a recursão)
- Merge @a08b07c
- operação que combina dois elementos num novo constituinte; proposta como o núcleo computacional da sintaxe recursiva
- recursão @03a3abc
- capacidade de encaixar estruturas dentro de estruturas do mesmo tipo, em princípio sem limite
- protolinguagem @61c2c3b
- estágio comunicativo sem sintaxe plena, com vocabulário e ordem rudimentares (Bickerton 1990)
- intencionalidade compartilhada @9308370
- cognição e motivação para metas conjuntas e atenção compartilhada, base cooperativa da comunicação (Tomasello)
- FOXP2 @d61cc6e
- gene de um fator de transcrição cuja mutação causa déficits de fala e linguagem na família KE; não é o 'gene da linguagem'
- musilíngua (musilanguage) @9984369
- estágio hipotético de vocalização holística que combinaria traços de música e de fala antes de sua diferenciação (Brown 2000)
- traços de projeto (design features) @70f36aa
- propriedades que definem a linguagem segundo Hockett (1960): dualidade de padronização, deslocamento, produtividade, arbitrariedade
Lacunas
Fontes
Questões conectadas
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