O que separa documento de não-documento?
Antes de perguntar qual é o documento mais antigo, é preciso decidir o que conta como documento. Um osso com marcas, um selo, um antílope no zoológico — cada definição inclui e exclui coisas diferentes, e redesenha o que pode ser datado.
O que a questão pressupõe
A questão é anterior a qualquer achado: não se trata de descobrir um documento, mas de definir o critério que faz de um objeto um documento. Registrar um ato? Ser produzido numa atividade? Servir de prova? Cada resposta muda o conjunto do que existe para ser datado e comparado.
O que separa documento de não-documento?
Toda história da escrita carrega uma pergunta escondida: o que, afinal, conta como documento? A questão parece pedante até se notar que ela decide o jogo. Se documento é só o registro escrito de um ato jurídico, então marcas em ossos e selos administrativos ficam de fora. Se documento é qualquer objeto que sirva de prova, então quase tudo entra — e a disputa pelo 'mais antigo' muda de candidato.
A tradição mais antiga vem da diplomática. Quando Jean Mabillon fundou a crítica documental no século XVII, documento era o registro escrito que testemunha um ato e cuja forma podia ser autenticada. É a concepção que ainda governa o direito e boa parte da história: documento é prova formal, e o que importa é distinguir o autêntico do falso. A régua é firme, mas estreita — exclui de saída tudo o que não tem forma jurídica reconhecível.
A arquivística do século XX alargou a fronteira. Para Hilary Jenkinson e depois Theodore Schellenberg, documento de arquivo é qualquer registro produzido ou recebido no curso de uma atividade, em qualquer suporte — o que conta não é a forma jurídica, mas a organicidade: o vínculo entre o registro e a função que o gerou. Por esse critério, uma lista de rações de Uruk é documento tanto quanto um tratado, e a fronteira passa a depender do contexto de produção, não da aparência do objeto.
O alargamento radical veio da documentação. Paul Otlet e, sobretudo, Suzanne Briet propuseram que documento é qualquer indício material tratado como evidência. Briet ilustrou com um exemplo célebre: um antílope correndo na savana não é documento; o mesmo antílope capturado, catalogado e exibido num zoológico torna-se documento — porque passou a funcionar como prova. Michael Buckland retomou a tese em 1997 e a levou ao limite: documento não é uma classe de objetos, é uma função. Qualquer coisa pode ser documento se for usada como evidência ou informação — inclusive um arquivo digital sem suporte físico fixo.
No fim, as quatro concepções não disputam fatos, e sim onde traçar a linha. E a linha que se escolhe é a mesma que decide, lá na frente, qual é o documento escrito mais antigo conhecido — porque define o que sequer pode ser colocado na disputa.
O que sustenta o que você está lendo
Toda enciclopédia esconde a qualidade das próprias fontes. Nós mostramos. As métricas abaixo são calculadas do JSON cru a cada build — nada de score único, nada de selo verde de qualidade. São seis ângulos honestos sobre o que sustenta esta questão.
Métricas calculadas no build a partir do JSON cru. Sem rótulos pintados, sem score único — o objetivo é tornar visível o que normalmente fica escondido. ver métricas como JSON.
As respostas que coexistem
Documento é o registro escrito que testemunha um ato e cuja forma pode ser autenticada; o que não tem forma documental reconhecível não é documento. [R0001]
crítica-chave · Restringe documento à forma jurídica e exclui de saída registros administrativos, marcas e suportes não-escritos que a arqueologia trata como documentos.
Documento é qualquer registro produzido ou recebido no curso de uma atividade, em qualquer suporte; o que o define é a organicidade — o vínculo com a função que o gerou —, não a forma jurídica. [R0002, R0003]
crítica-chave · Reconstruir a função geradora a partir do contexto de achado é interpretativo; em corpora antigos sem arquivo preservado, a organicidade é inferida, não observada.
Documento é qualquer objeto tomado como prova ou indício, independentemente de ser escrito; o antílope catalogado de Briet é documento porque passou a funcionar como evidência. [R0004, R0005]
crítica-chave · Ao admitir qualquer objeto-evidência, perde poder discriminante: quase tudo pode ser lido como documento sob alguma descrição, esvaziando a categoria.
Não há classe natural de documentos: ser documento é uma função evidencial ou informacional que qualquer coisa pode exercer, inclusive objetos digitais sem suporte físico fixo. [R0006]
crítica-chave · Definir documento por função torna a fronteira dependente do observador e do uso, o que dificulta qualquer comparação histórica estável entre 'documentos'.
Os métodos e suas críticas
Conceitos que a questão pressupõe
- documento @d5f51a8
- objeto que registra ou serve de prova de informação; a fronteira de sua definição é justamente o que está em disputa
- diplomática @6717608
- disciplina que estuda a forma, a gênese e a autenticidade dos documentos
- organicidade @7d764fd
- vínculo entre um registro de arquivo e a atividade que o produziu, base da concepção arquivística
- proveniência @4041a37
- princípio arquivístico que mantém os documentos ligados ao seu produtor e contexto de origem
- documentação @29b0643
- tradição (Otlet, Briet) que define documento de forma ampla, por sua função de evidência
- evidência @ae7204d
- função pela qual um objeto passa a sustentar ou comprovar uma afirmação
Lacunas
Fontes
Questões conectadas
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