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Campo: Origem da linguagem e da escrita

A origem da linguagem

Ninguém sabe ao certo quando nem como a linguagem surgiu. As estimativas vão de 50 mil a mais de um milhão de anos, e as explicações não se conciliam.

● Em aberto 7 posições mapeadas 23 fontes primárias
Mãos humanas em negativo pintadas numa parede rochosa
Mãos em negativo na Cueva de las Manos (Patagônia, Argentina). A arte simbólica é um dos indícios — indiretos e contestados — de uma mente já linguística. Mariano / Wikimedia Commons · Domínio público

Quase tudo o que sabemos sobre o passado humano vem de coisas que sobraram: ossos, ferramentas de pedra, sementes carbonizadas, pegadas em cinza vulcânica. A linguagem não deixa nada disso. Um som se dissipa no instante em que é pronunciado, e nenhuma gramática fica presa no sedimento. Foi essa frustração que levou a Sociedade Linguística de Paris a banir, em 1866, qualquer comunicação sobre a origem das línguas — o assunto rendia teorias demais e provas de menos. O veto caducou, mas o impasse que o motivou continua de pé.

A discussão moderna gira em torno de uma pergunta simples de enunciar e difícil de responder: a linguagem surgiu aos poucos ou de uma vez? Para a maioria dos pesquisadores, ela foi se formando ao longo de centenas de milhares de anos, como qualquer outra adaptação biológica. Steven Pinker e Paul Bloom defenderam em 1990 que a linguagem é tão complexa e tão útil que só a seleção natural poderia tê-la moldado — e, se foi assim, deve ter passado por estágios intermediários que já funcionavam, uma espécie de protolinguagem com poucas palavras e uma ordem rudimentar. Noam Chomsky discorda. Para ele, o coração da linguagem é uma única operação mental, chamada Merge, que combina elementos em estruturas hierárquicas sem limite. Algo assim, argumenta, não se constrói por partes: teria aparecido de repente, há talvez 80 a 50 mil anos, primeiro como ferramenta de pensamento e só mais tarde aproveitada para falar.

Há também quem se pergunte por onde a linguagem começou. A hipótese gestual sustenta que ela nasceu nas mãos antes de migrar para a voz — uma ideia reforçada pela proximidade, no cérebro, entre as áreas que controlam o gesto e a fala. Outra linha imagina um começo mais musical: antes das palavras, um canto sem partes, depois fatiado em unidades menores. E Michael Tomasello desvia a atenção da gramática para algo anterior a ela. De nada adianta ter sintaxe, observa, se faltar a vontade de compartilhar o que se pensa. Apontar para um objeto, seguir o olhar do outro, querer informar só por informar — esse alicerce cooperativo, que os outros grandes primatas quase não têm, talvez seja o verdadeiro pré-requisito da linguagem.

E quando isso aconteceu? Sem fósseis de fala, os pesquisadores recorrem a pistas indiretas. Um osso hioide encontrado num esqueleto neandertal em Kebara, em Israel, é quase idêntico ao nosso, o que sugere um aparelho vocal capaz de articular sons. A descoberta de que os neandertais carregavam a mesma versão do gene FOXP2 que nós — um gene ligado à coordenação motora da fala — levou alguns autores a propor que alguma forma de linguagem já existia há mais de meio milhão de anos, antes de nossa linhagem se separar da deles. Mas a pista é frágil: FOXP2 está longe de ser um 'gene da linguagem', e um estudo de 2018 não achou no genoma o sinal de seleção recente que se esperava encontrar. A cronologia, como quase tudo aqui, segue em aberto.

No fundo, boa parte da briga é sobre o significado da palavra. Se 'linguagem' quer dizer sintaxe recursiva sem limite, então ela pode muito bem ser exclusiva do Homo sapiens e ter pouco mais de 50 mil anos. Se quer dizer comunicação simbólica organizada, suas raízes recuam por milhões de anos e talvez alcancem outras espécies. Definida de um jeito, é um evento recente e único; definida de outro, um longo processo compartilhado. Não por acaso, um manifesto de 2014 — assinado, entre outros, pelo próprio Chomsky — reconhecia que, com o que se sabe hoje, a origem da linguagem continua mais um enigma do que uma resposta. O problema não é falta de teorias. É o contrário: há muitas, e quase nenhuma maneira de decidir entre elas.

Conceitos-chave

faculdade da linguagem (FLN/FLB)
distinção de Hauser, Chomsky & Fitch (2002) entre a faculdade em sentido amplo (sistemas em parte compartilhados com animais) e em sentido estrito (a recursão)
Merge
operação que combina dois elementos num novo constituinte; proposta como o núcleo computacional da sintaxe recursiva
recursãoQ210593 ↗
capacidade de encaixar estruturas dentro de estruturas do mesmo tipo, em princípio sem limite
protolinguagem
estágio comunicativo sem sintaxe plena, com vocabulário e ordem rudimentares (Bickerton 1990)
intencionalidade compartilhada
cognição e motivação para metas conjuntas e atenção compartilhada, base cooperativa da comunicação (Tomasello)
gene de um fator de transcrição cuja mutação causa déficits de fala e linguagem na família KE; não é o 'gene da linguagem'
musilíngua (musilanguage)
estágio hipotético de vocalização holística que combinaria traços de música e de fala antes de sua diferenciação (Brown 2000)
traços de projeto (design features)
propriedades que definem a linguagem segundo Hockett (1960): dualidade de padronização, deslocamento, produtividade, arbitrariedade

Sob qual moldura este verbete opera

A origem da linguagem é estudada por evidência material — genética, paleoneurologia, anatomia vocal, arqueologia simbólica e modelagem comparada. A mente é tratada como produto da evolução biológica; consenso, robustez e veracidade permanecem dimensões separadas.

Tradições sob as quais opera
  • Naturalismo metodológico (linguagem como faculdade biológica)
  • Falibilismo epistemológico (Popper, Lakatos)
  • Tensão interna mapeada: racionalismo/inatismo (Chomsky) × adaptacionismo (Pinker, Tomasello)
Deliberadamente fora de escopo
  • Origem divina ou sobrenatural da linguagem (Gênesis; a tese da origem divina de J.P. Süssmilch, 1766)
  • Idealismo linguístico (linguagem como entidade imaterial ou puramente espiritual)
  • A questão normativa de qual língua ou gramática seria 'superior'

Isto não é uma posição sobre a verdade — é a declaração do recorte. Outras molduras produziriam outro verbete; a ausência delas aqui é escopo, não veredito.

O que ainda está em aberto

A pergunta no coração deste tema

A faculdade da linguagem surgiu de forma gradual ou por um salto recente — e quando?

Este é o ponto onde o conhecimento ainda está sendo decidido. O dossiê completo traz as posições que coexistem, a robustez de cada uma, os métodos, as críticas e as fontes — com cada afirmação rastreável e citável.

7
posições
23
fontes
6
lacunas
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Imagens

Ossos hioides de Homo sapiens e de chimpanzé lado a lado
Osso hioide de Homo sapiens (A) e de Pan troglodytes (B). A anatomia vocal é um dos poucos proxies materiais disponíveis para o debate. R. D’Anastasio et al. / Wikimedia Commons · CC BY 4.0
Busto de reconstrução de um Neandertal
Reconstrução de um Neandertal. O hioide de Kebara e a variante derivada de FOXP2 compartilhada alimentam a hipótese de que já falavam. Motekov / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0