Ninguém sabe ao certo quando nem como a linguagem surgiu. As estimativas vão de 50 mil a mais de um milhão de anos, e as explicações não se conciliam.
Quase tudo o que sabemos sobre o passado humano vem de coisas que sobraram: ossos, ferramentas de pedra, sementes carbonizadas, pegadas em cinza vulcânica. A linguagem não deixa nada disso. Um som se dissipa no instante em que é pronunciado, e nenhuma gramática fica presa no sedimento. Foi essa frustração que levou a Sociedade Linguística de Paris a banir, em 1866, qualquer comunicação sobre a origem das línguas — o assunto rendia teorias demais e provas de menos. O veto caducou, mas o impasse que o motivou continua de pé.
A discussão moderna gira em torno de uma pergunta simples de enunciar e difícil de responder: a linguagem surgiu aos poucos ou de uma vez? Para a maioria dos pesquisadores, ela foi se formando ao longo de centenas de milhares de anos, como qualquer outra adaptação biológica. Steven Pinker e Paul Bloom defenderam em 1990 que a linguagem é tão complexa e tão útil que só a seleção natural poderia tê-la moldado — e, se foi assim, deve ter passado por estágios intermediários que já funcionavam, uma espécie de protolinguagem com poucas palavras e uma ordem rudimentar. Noam Chomsky discorda. Para ele, o coração da linguagem é uma única operação mental, chamada Merge, que combina elementos em estruturas hierárquicas sem limite. Algo assim, argumenta, não se constrói por partes: teria aparecido de repente, há talvez 80 a 50 mil anos, primeiro como ferramenta de pensamento e só mais tarde aproveitada para falar.
Há também quem se pergunte por onde a linguagem começou. A hipótese gestual sustenta que ela nasceu nas mãos antes de migrar para a voz — uma ideia reforçada pela proximidade, no cérebro, entre as áreas que controlam o gesto e a fala. Outra linha imagina um começo mais musical: antes das palavras, um canto sem partes, depois fatiado em unidades menores. E Michael Tomasello desvia a atenção da gramática para algo anterior a ela. De nada adianta ter sintaxe, observa, se faltar a vontade de compartilhar o que se pensa. Apontar para um objeto, seguir o olhar do outro, querer informar só por informar — esse alicerce cooperativo, que os outros grandes primatas quase não têm, talvez seja o verdadeiro pré-requisito da linguagem.
E quando isso aconteceu? Sem fósseis de fala, os pesquisadores recorrem a pistas indiretas. Um osso hioide encontrado num esqueleto neandertal em Kebara, em Israel, é quase idêntico ao nosso, o que sugere um aparelho vocal capaz de articular sons. A descoberta de que os neandertais carregavam a mesma versão do gene FOXP2 que nós — um gene ligado à coordenação motora da fala — levou alguns autores a propor que alguma forma de linguagem já existia há mais de meio milhão de anos, antes de nossa linhagem se separar da deles. Mas a pista é frágil: FOXP2 está longe de ser um 'gene da linguagem', e um estudo de 2018 não achou no genoma o sinal de seleção recente que se esperava encontrar. A cronologia, como quase tudo aqui, segue em aberto.
No fundo, boa parte da briga é sobre o significado da palavra. Se 'linguagem' quer dizer sintaxe recursiva sem limite, então ela pode muito bem ser exclusiva do Homo sapiens e ter pouco mais de 50 mil anos. Se quer dizer comunicação simbólica organizada, suas raízes recuam por milhões de anos e talvez alcancem outras espécies. Definida de um jeito, é um evento recente e único; definida de outro, um longo processo compartilhado. Não por acaso, um manifesto de 2014 — assinado, entre outros, pelo próprio Chomsky — reconhecia que, com o que se sabe hoje, a origem da linguagem continua mais um enigma do que uma resposta. O problema não é falta de teorias. É o contrário: há muitas, e quase nenhuma maneira de decidir entre elas.
A origem da linguagem é estudada por evidência material — genética, paleoneurologia, anatomia vocal, arqueologia simbólica e modelagem comparada. A mente é tratada como produto da evolução biológica; consenso, robustez e veracidade permanecem dimensões separadas.
Isto não é uma posição sobre a verdade — é a declaração do recorte. Outras molduras produziriam outro verbete; a ausência delas aqui é escopo, não veredito.
Este é o ponto onde o conhecimento ainda está sendo decidido. O dossiê completo traz as posições que coexistem, a robustez de cada uma, os métodos, as críticas e as fontes — com cada afirmação rastreável e citável.